A arte não mora apenas nos museus, nem repousa somente em obras clássicas. A performances artísticas trazem a tona a faceta transgressora e tem encontrado nas cidades a capacidade germinativa e interativa características do momento pós moderno. A microtrend Live the city mostra a vontade das pessoas de tornar o espaço urbano mais agradável através da customização dos ambientes, e encontra nas intervenções urbanas o universo ideal para a manifestação da arte com o intuito de trazer vida às construções e ao cinza característicos de grandes centros. Tom Bob, artista americano, tem feito intervenções recentes nas ruas de Nova Iorque, em formato 3D, utilizando construções cotidianas para trazer movimento e cor.¹

A ideia recente de intervenção nasceu nos anos 60, com o grupo austríaco Viennese Actionism², cuja proposta era radicalizar a perspectiva da arte, com uma política de transgressão, de práticas independentes e performáticas em situações inusitadas, onde não se espera encontrar eventos artísticos. Foi seguido pelos movimentos Dadá e Neo-dadá, permanecendo no cenário artístico até hoje. O teor construtivo da relação de comunicação entre o artista e o público é levantado como um dos fatores fundamentais que tem sido negligenciado e que, através da intervenção, encontra espaço para caminhar fora do mainstream, provocando emoções inusitadas em um novo público.

Afim de trazer novo olhar sobre a cidade através de novas perspectivas, muitos artistas têm interagido com o ambiente de forma autorizada ou ilícita, flertando com o vandalismo. Casos famosos como Banksy e Os Gêmeos propõem reflexão sobre as articulações do dia a dia local e sobre situações mais globalizadas de conteúdo variado, contando com intervenções em exposições e museus também – uma forma de crítica a existência da arte além das cercanias convencionais.

Assim, ultrapassando o teor artístico, as intervenções também podem ter cunho social e crítico. O projeto  Favela Painting³, criado em 2005 pelos holandeses Jeroen Koolhaas e Dre Urhahn, tem colorido comunidades carentes ao redor do globo, pintando paredes de casas e trazendo a arte para a rua. Passando pelo Rio de Janeiro mais de uma vez e levantando a questão da segregação socioespacial como fator relevante nas políticas públicas das cidades, mostra como a cor e a arte podem modificar os ambientes auxiliando na integração social. As fachadas das Favelas da Vila Cruzeiro e Santa Marta foram pintadas, metamorfoseando o ambiente de convivência com uma proposta integrativa.

Fica evidente o poder de transformar e informar causado pelas intervenções urbanas, pois os efeitos dela existem com o intuito de causar comoção na correspondência do diálogo com um público mais alargado e acessível, fora dos limites de contextos artísticos convencionais, ao alterar o olhar do cotidiano.

 

¹http://itapemafm00.clicrbs.com.br/blogdaitapema/2017/07/28/artista-cria-divertidas-intervencoes-urbanas-que-sao-verdadeiras-obras-de-arte/

²WIDRICH, Mechtild. The Informative Public of Performance: A Study of Viennese Actionism, 1965–1970.  The Drama Review, Volume 57, Number 1, Spring 2013, p. 137-151.

³ https://www.favelapainting.com/

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