Viver, experienciar, narrar-se em busca de memórias. Wonderland, Experiences & Stories nos fala sobre a importância da nostalgia, das raízes e da busca por uma identidade cristalizada em símbolos passados, que se reeditam em narrativas contadas para construir lembranças únicas e especiais no futuro. Na esteira do espaço da tradição, da comunicação simbólica das atitudes e da construção de um arquétipo feminino mordaz e transgressor, vemos o cigarro ser reescrito por digital influencers como Gigi Hadid, Kylie Jenner, Nicola Peltz, Elsa Hosk, Dakota Johnson e Sofia Richie¹: a mulher, sexy e poderosa, volta a fumar – um ícone de independência, poder e sensualidade infratora, vivenciado no passado e, agora, revisitado por jovens influentes. Histórias narradas que ignoram o prejuízo à saúde – e,  talvez, seja esta a intenção.

“I love smoking”, diz o garçom que responde as perguntas sobre fumar feitas por Dom Draper, no episódio piloto “Smoke Gets in Your Eyes”, da série Mad Men – garçom que, além de afirmar seu amor pelos cigarros, narra um hábito e evoca memórias de um tempo passado². Anos 60 é o cenário de fundo da série: o movimento feminista cresce, as mulheres saem para trabalhar e fumam. A alforria feminina do período caminhou com o marketing do cigarro e fez parte do arquétipo de liberdade: as pessoas fumam mesmo sabendo dos malefícios do hábito.

A macrotendência Wonderland, Experiences & Stories disserta exatamente sobre a narrativa ficcional da experiência: é sobre estórias, e não história (embora acabe por fazer parte desta e utilize elementos dela). Uma fábula vivenciada, composta por símbolos, uma criação na qual os atores se divertem ao interpretar uma personagem. As representações sociais são baseadas num “sistema de pensamento”, que afeta as percepções e atuações das pessoas e são vistas como fenômenos socioculturais, que se formam na interação entre indivíduos e, no caso do cigarro, é a dicotomia saúde vs. doença,que comunica o estilo de vida³.

A imagem criada é o compartilhamento da realidade, que se baseia na ideia sobre o cigarro no inconsciente coletivo. O imperativo moral para ser saudável faz parte de discursos mais amplos, que afetam julgamento e valores de toda a sociedade e, na contracorrente do de um lifestyle saudável, o cigarro reaparece, politicamente incorreto, numa construção identitária também relacionada ao gênero, pois, para as mulheres, o tabagismo pode oferecer um status simbólico de insubordinação na luta pela independência.

¹http://www.harpersbazaar.com/beauty/a9554018/smoking-on-instagram/

² https://en.wikipedia.org/wiki/Smoke_Gets_in_Your_Eyes_(Mad_Men)

³ STJERNAA, Marie-louise et al. ‘‘Social thinking’’ and cultural images: teenagers’ notions of tobacco use. Social Science & Medicine, Estocolmo, p.573-583, 2004. Mensal.

 

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